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Bases sensoriais da percepo
1.1. O ambiente e sua percepo
Freqentemente, a Psicologia  definida como a cincia que estuda o comportamento e os processos mentais.
A Psicologia acadmica aborda diversos assuntos, como bases fisiolgicas do comportamento, 
desenvolvimento psicolgico, aprendizagem, percepo, memria, motivao, emoo, inteligncia, linguagem 
e pensamento, personalidade, psicopatologia, influncias sociais sobre o comportamento e outros. O estudo 
da percepo , talvez, o seu ramo mais antigo. Cabe  anlise experimental compreender as bases sensoriais 
da percepo, a fim de desvendar o mistrio de como nos  possvel perceber o mundo que nos cerca atravs 
dos rgos sensoriais. 
Voc acha que a percepo que temos do nosso ambiente  perfeita? Antes de emitir sua opinio, convm 
lembrar que no somos capazes de ouvir sons de alta freqncia (ultra-sons) como os morcegos e os ces; no 
conseguimos ver o ultravioleta, como as formigas, as abelhas e outros insetos; no percebemos campos 
eltricos ou magnticos, como o fazem os peixes eltricos e algumas aves migratrias; tampouco conseguimos 
sentir o cheiro deixado pelo corpo de uma outra pessoa, fato corriqueiro na vida dos ces. Algumas destas 
incapacidades serviram de inspirao para os escritores de fico cientfica criarem seres fantsticos, dotados 
de uma percepo da realidade diferente daquela que conhecemos. 
Se voc perguntar a dez pessoas quantos sentidos ns possumos, a maioria responder que o ser humano 
possui cinco sentidos: viso, audio, tato, olfao e gustao. Talvez alguns declarem que so dotados de 
um sexto sentido, cuja funo raramente  definida com clareza, proporcionando-nos a vaga impresso de 
tratar-se de uma modalidade sen 
sorial enigmtica que a cincia ainda no conseguiu compreender. Poucos acrescentaro  lista dos sistemas 
sensoriais o sentido cinestsico. Ele nos permite perceber a posio dos membros e o sentido do equilbrio do 
corpo, tambm conhecido como sentido vestibular. Muito raramente algum menciona o sentido orgnico. Ele 
nos fornece informaes sobre a hidratao (sede), nutrio (fome), condio hormonal (sexo) e oxigenao 
(ar). Alm disso, convm lembrar que a viso, por exemplo, no  um s sentido. Compreende a viso de cores, 
forma, movimento e outros, como veremos posteriormente. 
De quantos sistemas sensoriais voc havia se lembrado? 
Para um psiclogo, nem sempre  importante saber o nmero exato de modalidades sensoriais do ser humano. 
E imprescindvel, no entanto, saber para que servem e como funcionam, a fim de compreender os 
comportamentos que dependem de uma correta percepo dos estmulos do ambiente e das condies fsicas e 
orgnicas do prprio corpo. Todos os nossos rgos dos sentidos tm caractersticas comuns: possuem 
receptores que so clulas nervosas especializadas, capazes de responder a estmulos especficos. Recebem, 
transformam e transmitem, para o restante do sistema nervoso, um grande nmero de informaes existentes 
no ambiente, na superfcie e no interior do nosso organismo. 
1.2. hansduo sensorial e classificaes dos receptores 
A especificidade dos sistemas sensoriais no  dada apenas pela especializao das clulas receptoras. 
Tambm o  pelas vias ascendentes e suas conexes neurais com os centros especficos do sistema nervoso 
central (reas sensoriais primrias), onde ocorre a integrao da informao. Devido a esta especificidade, no 
somos capazes de ouvir msica com os olhos, nem ver cores com os ouvidos ou atravs da pele. 
Os receptores so classificados de diferentes maneiras por diversos autores. Na tabela 1.1 foram reunidas duas 
das classificaes mais freqentemente encontradas. De acordo com a primeira, os receptores sensoriais 
podem ser classificados em quatro grupos, de acordo com o tipo de estmulo para o qual so especializados. 
Mecanorreceptores so sensveis  energia mecnica (presso); termorreceptores so sensveis  energia 
trmica (calor e frio); fotorreceptores so sensveis  energia eletromagntica (luz) e quimiorreceptores so 
sensveis  presena de substncias qumicas. Mecanorreceptores so responsveis pela audio, sentidos 
vestibular e cinestsico e pela sensao de presso cutnea. Os termorreceptores encontram-se na pele e em 
outras regies do corpo humano. So sensveis s modificaes de temperatura. Os quimiorreceptores so 
responsveis pela olfao e gustao, acusando a presena de substncias qumicas na 
mucosa nasal e na lngua. Finalmente, a viso depende dos fotorreceptores presentes na retina. 
Alguns autores acrescentam um quinto grupo referente aos receptores da dor, denominados nociceptores, os 
quais se encontram espalhados por quase todo corpo. Trata-se de receptores que respondem  estimulao 
mecnica, trmica e qumica, desde que muito intensa, isto , capaz de injuriar o organismo. Entre as poucas 
regies que no possuem receptores para a dor, esto o crebro e o colo do tero. 
A classificao acima  baseada na funo dos receptores sensoriais. No entanto, existem classificaes de 
outro tipo. Uma delas d nfase  relao espacial entre o organismo e os estmulos, sugerindo a diviso dos 
receptores sensoriais em trs grupos: exterorreceptores, propriorreceptores e interorreceptores. 
Exterorreceptores so responsveis pela captao de estmulos externos ao organismo. Podem estar distantes, 
como os estmulos visuais e auditivos, ou prximos, como os estmulos gustativos, olfativos e cutneos. No 
primeiro caso, so denominados telerreceptores e, no segundo, proxirreceptores. Estes, entretanto, exigem o 
contato do organismo com o objeto ou molculas de substncias. Os interorreceptores, ou sentidos 
profundos, so receptores destinados  percepo do estado interno do nosso organismo, como, por exemplo, 
fome, sede e sexo. Trata-se de modificaes de funes orgnicas, devidas a alteraes na concentrao de 
diversas substncias no organismo. Por exemplo, sais minerais, oxignio, gs carbnico e hormnios. Os 
propriorreceptores fornecem informaes sobre o movimento, postura e equilbrio do corpo, e consistem em 
receptores do sistema cinestsico e vestibular. Este conjunto de receptores  responsvel por comportamentos 
como andar a p ou de motocicleta, falar, assobiar, suspirar, afagar e beijar. Permitem-nos, tambm, tomar 
conhecimento de modificaes que acompanham nossas emoes. Por exemplo, as batidas fortes do corao 
num momento de alegria, o n na garganta e o aperto no corao sentidos em outras ocasies. 
A classificao dos receptores de acordo com a localizao dos estmulos, no entanto, no  bvia. A olfao 
poderia ser considerada um telerreceptor, porque nos possibilita receber informaes a respeito de objetos 
nem sempre prximos. Por exemplo, a presena de uma fbrica pode ser percebida a grandes distncias atravs 
da poluio por ela provocada. E preciso considerar, porm, que tanto o cheiro agradvel de uma flor quanto o 
cheiro aversivo de guas poludas s podero ser percebidos quando algumas molculas do perfume e das 
substncias poluentes entrarem em contato com as clulas receptoras olfativas alojadas em nossas narinas. O 
mesmo no acontece com os telerreceptores propriamente ditos. A viso e a audio proporcionam a 
percepo de objetos muito distantes. No h necessidade de contato com os mesmos. 
Na tabela 1.1 podemos comparar as duas classificaes descritas an 2 
3 
Tabela 1.1. Classificao dos receptores sensoriais quanto  sua funo e quanto  localizao dos estmulos. 
teriormente. Verifica-se que os mecanorreceptores consistem, na realidade, de receptores localizados em 
regies bem diversas do corpo, como, por exemplo, na pele (tato), no ouvido (audio) e nos msculos 
(cinestsico). Os propriorreceptores consistem em um grupo bastante heterogneo de receptores. Fornecem 
informaes sobre o equilbrio, o movimento dos membros e o perigo de ter o tecido de alguma parte do corpo 
injuriado. Por outro lado, verificamos que os receptores da audio foram classificados como 
mecanorreceptores, porque respondem  energia mecnica (presso exercida pelo som), e telerreceptores, 
porque informam a respeito de coisas externas e distantes do organismo. 
No princpio do captulo, vimos que as clulas receptoras so capazes de receber, transformar e transmitir, para 
o restante do sistema nervoso, informaes a respeito do ambiente. 
Em que consiste o ambiente? Basicamente, em duas coisas: matria e energia. Objetos, pessoas e animais so 
feitos de matria; a luz do sol ou de uma lmpada, o som que vem do rdio, a chama que aquece a panela no 
fogo so diferentes tipos de energia (eletromagntica, mecnica e trmica, respectivamente). Receptores 
reagem diante da energia existente no ambiente, seja ela energia refletida ou produzida pelos objetos, pessoas 
e animais. Isto , quando olhamos para uma criana, as clulas receptoras dos nossos olhos captam a luz 
refletida pela superfcie de seu corpo e de sua roupa; no entanto, quando olhamos para uma lmpada, a 
estimulao dos receptores ocorre devido  energia (luz) produzida pela prpria lmpada. Dependendo do tipo 
de lmpada, esta mesma energia eletro- 
magntica ser captada tambm por termorreceptores de nossa pele. Neste caso, sentiremos seu calor. 
Ns ouvimos um gato miar quando a energia mecnica, produzida por suas cordas vocais,  transferida para 
as molculas existentes no ar e transmitida para nosso ouvido. Ela tambm atinge outras regies de nosso 
corpo. Porm, como l no existem receptores para este tipo de energia mecnica, s ouviremos o miar do gato 
com nossos ouvidos. 
Todas as clulas receptoras, no importa qual a sua especializao, transformam a energia por elas captada em 
um nico tipo de energia, comum a todo o sistema nervoso: a energia eletroqumica, cuja principal 
caracterstica  o fluxo de ons atravs da membrana celular, podendo dar origem ao impulso nervoso (fig. 1.1). 
Isto , a resposta das clulas consiste em uma mudana no potencial de repouso de suas membranas. Por 
exemplo, tanto um fotorreceptor do olho quanto um termorreceptor da pele, quando estimulados, daro origem 
a uma mesma resposta: modificao do estado inico e de suas membranas. Esta transformao, ou traduo 
de um tipo de energia em outro,  denominada transduo. E o processo que caracteriza as clulas receptoras 
dos rgos dos sentidos. 
Dendritos 
Axnio Impulso 
Exterior 
lons positivos Na+ Na+ 
+ + + + +/ 4 + + + + + +j Membrana 
ti:i tzi celular 
1 lons negativos 
Interior 
+ + + + + 
k fZl LD rii tzt jzt zi Li rzi. LZ] E] [El [E] [El E] 
+ +  + +  1 / + + + + + +  
Impulso nervoso em uma parte do axnio 
Figura 1.1. Quando o neo ro n lo e a cio 1 epo o o. lii eq o i o ei te o i o n que se encontram nas vizinhanas da membrana celular: no exterior da clula, nas 
proximidades da membrana, encontram-se ons positivos e no interior, ons negativos. Por Outro lado, quando o neurnio est ativo, isto , quando conduz 
um impulso nervoso, ocorrem modificaes inicas no meio celular, dentre as quais destaca-se a migrao de ons positi,os (Na +) para o interior da 
clula. A migrao destes fons atravs da membrana semipermevel altera momentaneamente as caractersticas eletroqumicas da clula. (llustrao segundo 
McGuigan, 1974.) 
4 
5 

iiizaodo 
Fun 
receptor 
Exterorreceptores 
Interorreceptor
es 
Propriorreceptores 
Telerreceptores 
Proxirreceptor
es 


Fotorreceptores 
Viso 



Mecanorreceptor
es 
Audio 
Tato (presso) 

Cinestsico 
Vestibular 
Termorreceptore
s 

Temperatura 


Quimiorreceptore
s 
Olfao 
Olfao 
Gustao 


Nociceptores 

Dor 
Dor 
Dor 
Funes 
orgnicas 


Nutrio 
Hidratao 
Hormnios 
Oxigenao 
etc. 


Para haver transduo, isto , para podermos ver uma luz, ouvir um som, sentir a temperatura de um objeto, o 
cheiro e o gosto de uma substncia,  preciso que o estmulo tenha uma determinada intensidade. O receptor 
no ser excitado por estmulos demasiadamente fracos. No caso da olfao e da gustao,  a concentrao, 
ou seja, o nmero de molculas da substncia que determina a intensidade do estmulo. 
1.3. Aps a transduo 
Depos que o receptor transformou em energia eletroqumica (neural) a energia recebida do ambiente, ela ser 
encaminhada para as clulas nervosas aferentes e a outras partes do sistema nervoso. No organismo, mais 
especificamente, no sistema nervoso, a energia eltrica  propagada na forma de impulsos nervosos atravs 
dos milhares de neurnios que o constituem. 
Convm lembrar que o impulso nervoso se propaga de um neurnio para outro atravs de estruturas 
funcionais denominadas sinapses. Em algumas destas sinapses, o impulso nervoso provoca modificaes nas 
substncias qumicas que se encontram nestes pequenos espaos entre dois neurnios vizinhos. Estas 
modificaes, por sua vez, desencadeiam um novo impulso na clula seguinte. E nestas sinapses que age a 
maioria das drogas capazes de alterar a sensibilidade e o comportamento, como os anestsicos, analgsicos, 
alucingenos, estimulantes e calmantes. 
De sinapse em sinapse, a informao sobre o ambiente  transferida para o crebro, onde, finalmente ser 
integrada s demais informaes provenientes do mesmo ambiente (fig. 1.2). Por exemplo, a presena de seu 
cachorro molhado pela chuva, entrando em sua sala, pode ser anunciada por vrios receptores sensoriais, 
concomitantemente. Seu sistema visual permitir que voc veja o plo molhado e embaraado; seu sistema 
auditivo permitir que voc oua a respirao, os latidos e o rudo caracterstico quando se sacode, 
espalhando gotas de gua pela sala inteira. Seu sistema ttil permitir confirmar que o plo do animal est 
molhado, frio e grudento. Finalmente, seu sistema olfativo fornecer informaes sobre o cheiro pouco 
agradvel de seu co molhado pela chuva. S depois que todos estes dados chegarem ao crebro, acrescidos 
da informao, dada pela memria, de que um co limpo e seco  uma companhia mais agradvel, voc chegar 
 brilhante concluso de que o seu cachorro precisa de um banho. 
E no crebro que as informaes sobre o ambiente so integradas com nossas experincias passadas 
(memria), nossas motivaes e emoes presentes. Assim, voc desiste de dar um banho de gua fria com a 
mangueira do jardim, pois, subitamente, lembra-se dos banhos mornos recomen dado 
na ltima visita ao veterinrio. Voc tambm se lembra que sua me proibiu terminantemente banhos mornos 
no chuveiro do banheiro. Agora, seu estado emocional oscila entre a pena sentida pelo co molhado e frio e a 
preguia de esquentar gua no fogo para lhe dar um banho no tanque. Voc resolve a situao, decidindo 
enxugar seu cachorro com a toalha e passar um pouco de perfume. 
No momento que voc est lendo esta pgina, seu crebro tambm est recebendo informaes de outros 
estmulos do ambiente em que voc se encontra. Por exemplo, a posio em que se encontra o seu p 
esquerdo, os rudos do motor da geladeira, de um carro passando na rua, do relgio mais prximo, a cor da pele 
de sua mo, a temperatura e o cheiro do ar. Sua ateno, no entanto, no estava igualmente voltada para todos 
esses estmulos. Alguns faziam parte de um fundo geral. Outros mereceram mais ateno; esta, no entanto, 
deveria estar primordialmente voltada  leitura deste livro. 
No captulo 3, estudaremos melhor a natureza da ateno, para poder avaliar o papel que ela desempenha na 
percepo. 
Podemos adiantar, em resumo, que muitas coisas podem afetar a nossa ateno: nossas necessidades, 
interesses e valores. Obviamente, nossa ateno  voltada para os estmulos sbitos, novos e intensos. 
Estmulos intermitentes tambm so capazes de chamar nossa ateno. A seleo dos estmulos mais 
importantes para nossa sobrevivnca em um dado momento  um fenmeno importante, pois, se prestssemos 
ateno igual a tudo que nos cerca, os estmulos mais importantes no seriam investigados de forma a 
assegurar um comportamento ajustado e bem-sucedido. 
Crtex 
Auditiva 
Visual 
Figura 1.2. As informaes oriundas dos diferentes sistemas sensoriais so integradas em reas sensoriais primrias do crtex, 
como as reas visual, auditiva e somato-sensorial. A integrao da informao proveniente de vrias reas sensoriais primrias 
ocorre nas chamadas reas associativas do crtex, que ocupam vastas extenses do crebro. (Ilustrao segundo Schmidt, 1980). 
motor 
Somatosensorial 
6 
7 
Entre dois observveis  o estmulo ao ambiente e a resposta do organismo  te uma grtnde variedade de mudanas 
complexas no diretamente observveis. A anlise experimental da percepo permitiu, por meio de um conjunto de 
experimentos criteriosamente controlados, que ns comessemos, finalmente, a compreender um pouco melhor o 
funcionamento do nosso prprio corpo. Assim, podemos avaliar em que circunstncias um estmulo poder ser percebido e 
quando  intil esperar por uma resposta. 
Nas pginas seguintes, analisaremos o processo da transduo em cada um dos sistemas sensoriais. Comearemos pela 
sensibilidade cutnea (tato, temperatura e dor). Veremos, a seguir, a sensibilidade cinestsica, o sentido 
vestibular, o olfato, a gustao, a audio e, finalmente, a viso, a mais importante, uma vez que o ser humano pode 
ser considerado um ser primordialmente visual. 
1.4. Sensibilidade cutnea 
Se algum lhe perguntasse qual  o maior rgo do seu corpo, o que voc responderia? O fgado, o pulmo, o crebro ou o 
intestino? Fisiologicamente, a pele pode ser considerada o rgo mais extenso do ser humano. Para uma pessoa de estatura 
mediana, sua rea corresponde  de um tapete de, aproximadamente, 1,50 m. Em quase toda a sua extenso, encontram-se 
plos. Relativamente, poucas regies so desprovidas dos mesmos, como, por exemplo, os lbios, a palma das mos, a sola 
dos ps e algumas reas dos rgos genitais. Esta vasta superfcie que nos reveste possui trs tipos de receptores: 
mecanorreceptores, termorreceptores e nociceptores. Sentimos ccegas, vibrao e a presso que os objetos exercem sobre 
nossa pele atravs dos mecanorreceptores. Os termorreceptores respondem quando ocorrem mudanas de temperatura na 
pele, acarretadas pelo contato com objetos mais frios ou mais quentes que ela. Os nociceptores so responsveis pela 
sensao de dor causada por uma grande variedade de estmulos. Por exemplo, presso e calor excessivos, frio intenso, 
cortes, picadas, pancadas, belisces. Isto , estmulos capazes de danificar o tecido atingido, podendo produzir leses. A 
diferena psicolgica entre um afago e um tapa  bvia: um  agradvel, o outro di. A diferena fsica entre os dois, no 
entanto,  bem mais sutil: ambos so estmulos tteis que consistem de presso exercida sobre a pele. A caracterstica que 
os distingue  a intensidade do estmulo, o que leva  excitao de receptores cutneos diferentes. 
A pele  o limite externo de nosso corpo. Sobre ela incide todo tipo de energia. Ela  iluminada pela luz que vemos com 
nossos olhos,  atingida pelos sons que fazem vibrar nossos tmpanos e pelas molculas de 
perfume que penetram pelas nossas narinas. Porm, nossa pele no capta estes detalhes de nosso ambiente. 
Ela nos proporciona, no entanto, informaes importantes a respeito de outros aspectos da realidade que nos 
cerca. Pense, por um momento, na sua sensao quando uma minscula abelha anda sobre seu brao. Ela  to 
pequena e to leve. Ainda assim, voc a percebe. Isto ocorre porque as patas do inseto deformam a pele de 
seu brao e os plos nos quais esbarram. Esta leve presso exercida sobre a pele e os plos  energia mecnica 
suficiente para estimular os mecanorreceptores. No caso de uma picada de abelha, sentimos dor devido s 
injrias causadas pelo ferro e pela substncia qumica injetada na epiderme. O peso do inseto estimula os 
mecanorreceptores; a danificao e irritao do tecido epitelial estimulam os nociceptores. Se, em lugar da 
abelha, tivssemos uma minhoca fria e mida, voc imediatamente perceberia a diferena. Porque, alm dos 
mecanorreceptores, os termorreceptores, sensveis  queda de temperatura, tambm seriam estimulados. 
O grande nmero de fibras nervosas que chegam at a pele, responsveis pelo exuberante conjunto de 
sensaes cutneas, so basicamente de quatro tipos: terminaes nervosas livres; terminaes com 
extremidades expandidas ou dilatadas (discos ou corpsculos de Merkel ou Ruffini); terminaes 
encapsuladas (corpsculos de Paccini, Meissner, Golgi e Krause); nas regies dotadas de plos, encontra-se 
um receptor adicional, denominado terminao nervosa folicular ou peripilosa, que envolve a raiz dos plos 
(fig. 1.3). A princpio, supunha-se que cada um destes diferentes tipos de receptores fosse sensvel a apenas 
um tipo de estmulo. Entretanto, por meio de experimentos criteriosamente elaborados, esta hiptese foi 
rejeitada. O contra-exemplo mais famoso foi fornecido pelos resultados obtidos com a estimulao ttil da 
crnea, uma regio inervada apenas por terminaes livres. Aplicando-se estmulos mecnicos trmicos e 
dolorosos sobre esta parte do olho, as pessoas relatavam todas as modalidades de sensao: presso, frio, dor 
e calor. 
A sensibilidade da pele varia de uma regio do corpo para outra. Isto , um estmulo fraco, imperceptvel em um 
determinado ponto da pele, pode ser suficientemente intenso para ser percebido em outras regies. De forma 
muito simplificada, podemos dizer que a intensidade mnima necessria para que um estmulo possa ser 
percebido  conhecida como limiar (no captulo 2 voc encontrar informaes detalhadas a respeito do 
estudo dos limiares do ser humano). Podemos afirmar, portanto, que quanto maior o limiar menor a 
sensibilidade. 
Na figura 1.4, encontram-se medidas de limiares, obtidas em diferentes regies cutneas. Neste experimento, 
empregando um compasso, os pesquisadores estimulavam, ao mesmo tempo, dois pontos da pele. Eles 
verificaram que em algumas regies do corpo, como a ponta da lngua, por exemplo, as pessoas eram muito 
sensveis a este tipo de estimulao mecnica. Isto , com uma distncia minscula de 1 mm entre as duas 
pontas 
8 
9 
Termina- Corpsculo Discos Corpsculos Receptores Discos 
es de Meissner de de Pacini dos folculos tteis 
livres Merkel pilosos 
Figura 13. Alguns dos numerosos tipos de mecanorreceptores existentes tanto na pele glabra (a) como na pele dotada de plos 
(b) foram ilustrados esquematicamente. Terminaes livres e corpsculos de Pacini podem ser encontrados em ambos os tipos 
de pele. No entanto, terminaes nervosas foliculares ou peripilosas s ocorrem nas regies dotadas de plos (b). (Ilustrao 
segundo Schmidt, 1980.) 
do compasso, os sujeitos j conseguiam relatar que haviam sido estimulados em dois pontos da lngua e no 
em apenas um. No dorso, por outro 
lado, as mesmas pessoas s eram capazes de tais proezas quando a distncia entre as duas pontas do 
compasso atingia 70 mm. Trata-se, portanto, de uma regio bem menos sensvel, uma vez que, nas situaes 
experimentais em que a distncia entre as duas pontas do compasso era inferior a 7 cm, as mesmas eram 
percebidas como sendo uma nica ponta exercendo presso sobre a pele. 
As diferenas de sensibilidade so devidas, principalmente, ao elevado nmero de receptores nas regies mais 
sensveis e a um nmero igualmente privilegiado de neurnios nas reas corticais (reas sensoriais primrias), 
para as quais convergem as informaes oriundas destas regies. 
Figura 1.4. Limiares para discriminao de dois pontos de estimulao mecnica sobre a pele. Se a distncia entre dois pontos 
de presso sobre a pele  muito pequena, percebemos apenas um ponto de presso. Isto pode ser verificado utilizando um 
compasso de duas pontas como est ilustrado em a. O grfico de barras em b apresenta limiares assim obtidos para diferentes 
regies da pele. Regies muito sensveis, como a ponta da lngua, a ponta do dedo indicador e lbios, apresentam limiares baixos 
(os resultados foram ampliados no canto direito da figura). Regies menos sensveis, como o pescoo e o dorso, mostram 
limiares bem mais elevados. (Ilustrao segundo Weber e Landois, no livro de Schmidt, 1980.) 
Na figura 1.5 encontra-se uma seco transversal atravs do crtex sensorial, mostrando as diferenas de 
tamanho das reas desta regio cortical 
Epiderme 
Tecido 
subcutneo 
b 
Pele 
0 
Limiar de discriminao espacial simultnea 
c 
Termina - es de Ruffinj 
b 
. 
Ponta da lngua 
Ponta do indicador 
Lbios 
Bordo da lngua 
Palma da mo 
Fronte 
Dorso da mo 
Dorso do p 
Pescoo 
Dorso 
 
 
o 
1 2 3 4 5mm 
O 10 20 30 40 50 60 7Omm 
10 
11 
destinadas ao processamento da informao ttil proveniente de diferentes lugares da superfcie do corpo. 
Como se observa, reas relativamente extensas de tecido cortical so reservadas para processar a informao 
enviada, pelos receptores, de regies relativamente pequenas, como os lbios, 
a lngua, o p, a ponta do dedo indicador e a palma da mo. Bem diversas so as condies de regies de 
pouca sensibilidade, como, por exemplo, o tronco, a perna e o cotovelo. Esta representao distorcida da 
superfcie corporal foi denominada de homnculo sensorial ou homnculo de Penfleld em homenagem ao 
pesquisador que descobriu este importante aspecto da diferena de sensibilidade ttil. 
A sensibilidade cutnea  de extrema importncia para a sobrevivncia da espcie humana. Permite-nos 
procurar abrigo do frio e calor, interagir fisicamente com o meio e nossos semelhantes e evitar estmulos que 
possam causar injria ao nosso corpo. Os exaustivos estudos feitos por psiclogos dedicados ao 
desenvolvimento infantil no deixam dvidas quanto  importncia da estimulao ttil adequada durante a 
infncia. Mesmo depois de adultos, homens e mulheres continuam buscando o contato com determinados 
estmulos que lhes proporcionam prazer. Te,tcntunho disto so as caractersticas tteis de determinados 
tecidos, corno a fcfura da flanela e da l angor, a maciez da seda e do algodo, o elevado nmero de produtos 
cosmticos e farmacuticos destinados a diminuir a aspereza da pele, e a proliferao das casas de massagem 
nos grandes centros urbanos. 
1.5. Sensibilidade cinestsica 
A sensibilidade cinestsica, ou simplesmente cinestesia, refere-se s sensaes produzidas pelos movimentos 
dos membros e corpo. Isto , a partir de estmulos fornecidos por regies especficas do organismo, 
percebemos a postura e movimentos de nosso prprio corpo, bem como a fora despendida em cada gesto. 
Esta modalidade sensorial difere, portanto, da sensibilidade cutnea. Esta  incumbida de captar, sobretudo, 
estmulos fornecidos pelo ambiente. 
Se pedssemos a voc para adivinhar onde se encontram os receptores da inestesia (proprioceptores), que 
regies de seu prprio corpo voc apontaria? Vamos considerar o gesto simples de estender a mo para 
cumprimentar um amigo. Ao execut-lo, voc distende e contrai um conjunto especfico de msculos e tendes 
do brao e da mo, modificando o ngulo formado pela articulao do antebrao com o brao (cotovelo), e do 
brao com a mo (pulso). Dependendo da posio em que voc estiver e do entusiasmo ao cumprimentar seu 
amigo, voc exercer mais ou menos fora ao apertar-lhe a mo. E precisamente nos msculos, tendes e 
articulaes que esto situadas as clulas nervosas receptoras da cinestesia. Trata-se de receptores sensveis 
 energia mecnica. Podem ser de trs tipos: fusos musculares (fig. l.6a), rgos tendinosos (fig. l.6b) e 
receptores articulares. 
b)ferio 
e maxilares 
Figura 1.5. Com o consentimento e colaborao de pacientes adultos submetidos a cirurgia cerebral, foi possvel estimular diferentes pontos do crtex 
somato-sensorial, observando as sensaes resultantes. A ilustrao acima, conhecida como Homnculo Sensorial de Penfield, consiste no mapeamento das 
regies do crtex somato-sensorial, mostrando a localizao e a extenso das regies corticais em que a informao proveniente da pele  processada. 
Observe como as informaes provenientes de pequenas superfcies de pele muito sensveis como a lngua, dedo indicador e lbios, so processadas por 
extensas reas do crtex. Por outrb lado, as informaes sensoriais oriundas de grandes reas cutneas menos sensveis, como as costas, ombros e quadris, 
convergem para regies proporcionalmente menores do crtex somato-sensorial. (Ilustrao segundo Penfield e Rasmissen, 1950, no livro de Shmidt, 
1980.) 
12 
13 
Para o crebro 
 Extenso-receptor (terminaes anulospirais) 
Cpsula do fuso (tecido conjuntivo( 
Placa terminal das fibras motoras 
Durante a contrao ou distenso muscular, a transduo nos fusos musculares consiste na transformao da 
energia mecnica sobre eles exercida em energia eletroqumica. Esta  transmitida, na forma de impulsos 
nervosos, atravs de uma cadeia de neurnios e sinapses, at o crtex sensorial e demais reas do sistema 
nervoso. Nos rgos tendinosos, alojados nos tendes, o processo desenvolve-se da mesma forma. Atravs 
destes dois tipos de receptores,  fornecida a informao a respeito da fora desenvolvida pelos msculos em 
cada movimento. Os mecanorreceptores encontrados nas articulaes proporcionam sensaes posturais e 
cinestsicas (no de fora) porque os impulsos nervosos, resultantes da transduo da 
energia mecnica exercida sobre eles, preservam informaes sobre a posio, velocidade e direo do 
movimento articular. Estes trs tipos de receptores sensveis  energia mecnica, situados nos msculos, 
tendes e articulaes, fornecem informaes sobre caractersticas qualitativas da propriocepo: 
sensibilidade postural (percepo da posio dos membros, mesmo no escuro), sensibilidade aos movimentos 
(percepo da direo e velocidade do movimento) e sensibilidade para fora (percepo da for- 
a exercida em cada movimento). 
E fcil compreender, portanto, o papel importante da sensibilidade cinestsica no dia-a-dia de manequins, 
intrpretes, esportistas ou estivadores. Sua competncia profissional depende, justamente, da percepo 
acurada de seu prprio corpo, de seus movimentos e da fora despendida. 
Para um psiclogo empenhado na compreenso do comportamento, o conhecimento dos processos sensoriais 
envolvidos nos movimentos do corpo  extremamente til. Permite um exame mais detalhado das relaes entre 
estmulos e respostas, proporcionando ao profissional maior probabilidade de acerto ao tentar auxiliar o ser 
humano em seu relacionamento 
com seus semelhantes e com seu meio. 
1.6. Sentido vestibular 
Figura 1.6. Ilustrao de mecanorreceptores encontrados em msculos (a) e tendes (b) responsveis pela cinestesia. Nos msculos (a) os 
receptores encontram-se enrolados ao redor das fibras musculares contidas dentro da cpsula do fuso. Quando o msculo  estendido, aumenta a 
freqncia de impulsos nervosos enviados ao crebro. O contrrio ocorre quando o msculo  contrado. Desta forma, o sistema nervoso central recebe 
ininterruptamente informaes sobre o comprimento dos msculos, isto , a respeito da fora por eles exercida. As ramificaes da fibra sensitiva sobre o 
tendo (b) so conhecidas como rgos ou fusos tendinosos ou ainda como rgos de Golgi. Como no caso dos msculos, a freqncia de impulsos 
nervosos enviados ao crebro aumenta  medida que o tendo  estirado, fornecendo desta forma informaes a respeito da fora exercida pelo msculo a ele 
conectado. (Ilustrao a, segundo Schmidt, 1979; b, segundo McGuigan, 1974.) 
J vimos que o sentido da cinestesia  responsvel pela percepo da posio e dos movimentos de nossos 
membros no espao. O sentido vestibular refere-se  percepo e manuteno do equilbrio do corpo como um 
todo. Isto , informa-nos se estamos de p, caindo ou de cabea para baixo. A sensao de perder o equilbrio 
depende da inclinao e do movimento da cabea. Basicamente, h duas maneiras de perder o equilbrio: 
cair em linha reta no cho (acelerao linear), ou cair lentamente para a frente ou para trs, enquanto nosso 
corpo descreve uma trajetria circular (acelerao angular). Estes dois tipos de acelerao so os estmulos 
captados pelos mecanorreceptores do labirinto ou aparelho vestibular. 
Fibras motoras 
Tendo Fibra muscular 
rgo tendneo de Golgi 
Fibras musculares internas do fuso 
14 
15 
O rgo vestibular consiste em duas cavidades alojadas no osso temporal do crnio, nas imediaes da cclea, que se 
encontra no ouvido interno. H uma de cada lado da cabea e so repletas de fluido (endolinfa). Cada cavidade  constituda 
de duas partes distintas: trs canais semicirculares e duas estruturas saculiformes, o sculo e o utrcolo. As clulas 
receptoras encontram-se na cpula de uma regio dos canais semicirculares, denominada ampola. Respondem a 
movimentos circulares e rotatrios da cabea e os impulsos nervosos resultantes da transduo propagam-se pelo nervo 
vestibular. Nas regies das mculas do sculo e do utrcolo, encontram-se clulas receptoras que respondem a movimentos 
retilneos (para a frente  para trs; para cima  para baixo; para a direita 
 para a esquerda). Trata-se de clulas receptoras ciliadas, estimuladas atravs da energia mecnica proporcionada pela 
inclinao de seus clios mergulhados na endolinfa. Esta  agitada com os movimentos da cabea (fig. 1.7). 
Quando o dentista aumenta ou diminui a inclinao do encosto da cadeira (acelerao angular), so estimuladas as clulas 
receptoras dos canais semicirculares; quando, no entanto, ele eleva a cadeira a uma certa distncia do cho (acelerao 
linear), so estimuladas as clulas receptoras do sculo (sensveis a movimentos verticais). Uma parada brusca no veculo 
(acelerao linear) no qual viajamos estimula as clulas receptoras do utrculo (mais sensveis a movimentos horizontais). 
Obviamente, da estimulao conjunta destes trs tipos de clulas resulta a percepo de movimentos muito sutis e 
complexos. Isto permitir avaliar com preciso a posio da cabea no espao, em cada momento. 
1.7. Olfato 
O sentido do olfato permite-nos distinguir uma srie de substncias qumicas pelo seu cheiro. As sensaes 
olfativas so transmitidas por uma srie de clulas sensoriais, alojadas em uma pequena regio do epitlio 
olfativo, que reveste a cavidade nasal (fig. 1.8a). Estas clulas so estjmuladas por uma mistura de ar e 
molculas. Estes se desprendem de objetos contidos em nosso ambiente. Isto , a presena de um objeto-
estmulo, de uma pessoa ou de uma substncia, como um perfume francs, s poder ser detectada por nosso 
olfato se algumas de suas molculas atingirem as clulas sensoriais olfatrias sensveis a elas. Compreende-se, 
portanto, por que substncias muito volteis, como, por exemplo, ter, lcool e gasolina so to prontamente 
percebidas por estes quimiorreceptores. A volatilidade de uma substncia  necessria, porm no  suficiente. 
E preciso tambm que suas molculas sejam solveis no muco que reveste a regio olfa a 
Figura 1.7. a) O aparelho vestibular  formado por trs canais semicirculares, sculo e utrculo. b) A ampliao no alto da figura 
mostra os mecanorreceptores, clulas ciliadas que se encontram nas ampolas dos canais semicirculares e nas mculas do saculo e 
utrculo. Nas ampolas, os clios destas clulas renem-se formando a crista. Esta, envolta por uma substncia gelatinosa, d 
origem  cpula, que fica mergulhada na endolinfa e oscila quando o lquido se agita em decorrncia dos movimentos da cabea. 
Desta oscilao resulta a deformao dos clios que excita as clulas receptoras, desencadeando os impulsos nervosos que sero 
enviados para o crebro. (ilustrao a, segundo Alpern, 1971.) 
tria da cavidade nasal. Deste modo, podem entrar em contau com os clios dos receptores olfativos que ali se encontram 
mergulhados (fi. 1 8b). 
Ampola 
vestibular auditivo 
Sculo 
Ducto coclear 
16 
17 
1.8. Gustao 
Figura 1.8. a) Os receptores do olfato encontram-se na parte superior da cavidade nasal e esto em contato direto com o 
bulbo olfatrio, que  uma estrutura do crebro. b) A ampliao no alto da figura mostra as clulas receptoras ciliadas, cujos 
clios encontram-se mergulhados no muco que reveste a cavidade nasal, onde se dissolvem as molculas das substncias que 
excitam os clios destas clulas. (Ilustrao a, segundo Mcouigan, 1974.) 
A importncia do olfato para a sobrevivncia dos organismos pode ser avaliada, constatando-se que uma parte das 
substncias odorosas naturais  produzida por flores e frutos, pela decomposio de organismos mortos e pelas glndulas 
de alguns animais. Isto , desempenham o importante papel de estmulos discriminativos, que sinalizam a presena de 
alimento, perigo ou de parceiros sexuais. Porm, nem todas as substncias dotadas de volatilidade e solubilidade so 
capazes de desencadear a sensao de cheiro. Para explicar por que determinadas substncias so inodoras, enquanto outras 
possuem odor, isto , para esclarecer a funo olfativa, foram elaboradas diversas teorias. Dentre elas, a mais conhecida  a 
teoria estereoqumica desenvolvida por Amoore. Este pesquisador verificou que todos os odores podiam ser agrupados em 
apenas sete categorias: canfrico, almiscarado, floral, de hortel, etrico, penetrante e ptrido. Verificou, tambm, que uma 
grande parte das substncias percebidas como pertencentes a uma destas sete categorias possua forma e tamanho 
molecular semelhantes. Este fato levou-o a estabelecer uma relao hipottica entre a forma e o tamanho da molcula de 
uma substncia qumica e o seu cheiro. 
relativamente grande o nmero de substncias que diariamente levamos  boca. No entanto, para descrever o seu gosto, 
referimo-nos a apenas quatro tipos de sabor: doce, salgado, azedo e amargo. Sentimos o gosto dos alimentos, medicamentos 
e outras substncias quando algumas de suas molculas dissolvidas na saliva atingem as clulas receptoras. Estes 
quimiorreceptores so os corpsculos gustativos, alojados nas papilas distribudas pela superfcie da lngua (fg. 1.9). 
Nossa sensibilidade a diferentes substncias no  a mesma em toda a extenso da lngua. Na ponta, somos mais sensveis 
ao doce e, na base, ao amargo. Nas laterais, nossa sensibilidade  maior ao azedo, e nas bordas da lngua somos muito 
sensveis ao salgado (fig. 1.10). A magnitude das respostas dos corpsculos gustativos varia de acordo com a intensidade 
do estmulo, permitindo a discriminao entre uma sopa gostosa e outra muito salgada. 
Na olfao, segundo a teoria estereoqumica, o cheiro de uma substncia depende, aparentemente, da forma e do peso 
molecular. Ainda no so conhecidas, no entanto, as caractersticas responsveis pelo gosto das substncias. Sabe-se, 
apenas, que o sabor azedo dos cidos, por exemplo do suco do limo e do vinagre,  devido ao on H + (hidrognio) de sua 
composio qumica. 
Poro gustativo 
Receptores gustativoS 
Figura 1.9. Os corpsculos gustativos encontram-se nas papilas gustativas da lngua. So formados por um aglomerado 
caracterstico de clulas receptoras, que lanam seus prolongamentos (microvilosidades) para o poro gustativo, onde entram em 
contato com molculas de substncias dissolvidas na saliva, resultando na excitao dos receptores. (Ilustrao segundo 
McGuigan, 1974.) 
Odor 
Receptor olfativo 
Cavidade nasal 
a 
Superfcie da lngua 
Clulas-suporte 
Para o crebro 
Fibras nervosas 
18 
19 
As modernas indstrias de medicamentos e gneros alimentcios adicionam substncias qumicas aos seus 
produtos com a finalidade de controlar seu consumo. Assim, por exemplo, so acrescentados flavorizantes e 
aromatizantes s gelias e gelatinas que, em seu estado natural, no teriam gosto nem cheiro. Produtos 
destinados a diabticos e a pessoas que esto se submetendo a dietas alimentares desprovidas de acar so 
adoados artificialmente. Os medicamentos preparados para crianas merecem um cuidado todo especial por 
parte da indstria farmacutica. Acrescentam-se a eles substncias de gosto e odor agradveis para garantir 
seu consumo. Por Outro lado, medicamentos muito perigosos, que poderiam ser ingeridos por engano pelas 
crianas, so acrescidos de substncias amargas para que sejam rejejtados imediatamente. 
O emprego indiscriminado de substncias aromatizantes e flavorizantes pode colocar em risco a saude do ser 
humano. Tomemos, por exemplo, uma sobremesa preparada com muitos ovos, portanto rica em protenas. Se, 
no entanto, for preparada sem ovos e a ela se acrescentarem substncias com gosto, cheiro e cor de gema de 
ovo, continuar sendo um saboroso quindim, porm, sem valor nutritivo. 
1.9. Audio 
Quando voc liga um rdio porttil, a membrana de seu alto-falante comea a vibrar. Esta vibrao  transferida para as 
molculas de ar mais prximas. Estas, por sua vez, transmitem a energia mecnica assim recebida para as molculas 
vizinhas, permitindo a propagao da energia a grandes distncias. Se colocssemos o rdio em um recipiente do qual fosse 
retirado todo o ar, deixaramos de ouvir o som porque a vibrao de seu alto-falante no se propagaria no vcuo. O som se 
propaga em forma de ondas que se deslocam no ar a uma velocidade de, aproximadamente, 340 metros por segundo, e de 
forma mais rpida na gua (fig. 1.11). Trata-se, portanto, de uma velocidade comparvel  dos modernos avies a jato, com 
exceo dos supersnicos capazes de se deslocarem a velocidades superiores  do som. As ondas sonoras podem ser 
divididas em ciclos. Sua freqncia depende do nmero de ciclos por segundo  cps  (ou Hertz) e  responsvel pela 
diferena entre um tom grave e um tom agudo, uma nota D e uma nota Mi. A nota L, usada para afinar os instrumentos 
Para o crebro 
Nervo 
glossofarngeo 
Nervo facial 
circunvaladas Papilas foliadas Papilas fungiformes 
Ponta da lngua 
Figura 1.10. A sensibilidade s diferentes qualidades gustativas no  a mesma em toda superfcie da lngua. Na ponta da lngua 
encontra-se a maior sensibilidade ao doce; no extremo oposto, na base da lngua, a sensibilidade ao amargo  mais acentuada; a 
sensibilidade ao azedo  maior nas laterais e ao salgado, nas bordas. (Ilustrao segundo Schmidt, 1980.) 
4 
4 Um ciclo 
Onda sonora 
- tom puro 
Onda sonora complexa 
Figura 1.11. As ondas sonoras podem ser simpLes, como no caso dos tons puros, ou complexas como a maioria dos sons que 
ouvimos no dia-a-dia. So medidas em ciclos por segundo (cps ou Hertz). 
20 
21 
musicais, tem 400 ciclos por segundo. Tons de alta freqncia, acima de 
700 cps, so percebidos como agudos. Tons de baixa freqncia, abaixo 
de 700 cps, como graves. Quanto maior a freqncia de um tom, maior 
a probabilidade de que seja percebido como agudo. 
O nosso ouvido no  igualmente sensvel a todos os tons. Somos mais sensveis a tons cuja freqncia oscila 
entre 20 e 20.000 ciclos por segundo. A sensibilidade no  a mesma para todos os animais dotados de 
audio. Ces e morcegos, por exemplo, so capazes de ouvir tons para os quais o ser humano  insensvel. As 
ondas sonoras, vindas de longe ou de perto, encontram nossas orelhas, penetram pelo canal auditivo e, 
finalmente, atingem a membrana timpnica. Esta passa a vibrar na mesma freqncia que a fonte sonora. 
Nosso ouvido  constitudo por trs partes bem distintas: ouvido externo, mdio e interno (fig. 1.12). A orelha 
e o canal auditivo fazem parte do ouvido externo, que  separado do ouvido mdio pelo tmpano. No ouvido 
mdio, encontra-se um conjunto de trs ossos muito pequenos conhecidos como ossculos. O primeiro 
ossculo, chamado martelo, apiase na membrana timpnica e transfere para os seguintes, denominados 
bigorna e estribo, a vibrao recebida. O ltimo ossculo apia-se sobre uma membrana conhecida como janela 
oval, que separa o ouvido mdio do ouvido interno. Ela  responsvel pela transferncia da vibrao para a 
regio mais interna do ouvido. O ouvido interno consiste de um canal repleto de lquido e enrolado como um 
caracol, denominado canal coclear. Dentro deste canal, ao longo de toda sua extenso, encontra-se a 
membrana basilar, com suas clulas ciliadas. Estas clulas so os receptores da audio. Eles respondem  
deformao, trao ou toro produzidas pela vibrao do lquido no qual esto mergulhados. 
Diferentes tipos de fontes sonoras, por exemplo, campainhas, instrumentos musicais (de corda, como o 
berimbau e o violo, ou aqueles dota- 
dos de membranas, como o tambor e a cuca), motores a exploso de veculos (como motocicletas e avies), 
jatos de ar (como apitos e assobios), desencadeiam a vibrao do ar e das estruturas do ouvido os quais 
terminam por deformar as clulas receptoras. Estas, por sua vez, transformam a energia mecnica sobre elas 
exercida em energia eletroqumica, isto , 
efetuam a transduo dos estmulos ambientais. 
Nossa sensibilidade  maior para tons de 2.000 a 3.000 cps. Isto significa que tons com esta caracterstica 
qualitativa podem ser ouvidos em intensidades muito baixas (fig. 1.13). Por outro lado, os tons de 20 ou 20.000 
cps devero ser muito intensos, uma vez que somos pouco sensveis a eles. Qualquer tipo de tom dentro da 
nossa faixa de audibilidade, no entanto, necessita sempre de um mnimo de energia para que possa ser ouvido. 
Es- 
ta intensidade mnima necessria para se ouvir um som  denominada de limiar absoluto auditivo. 
Denominamos de subliminares aqueles estmulos cuja intensidade  mais baixa que o limiar absoluto. 
Figura 1.12. a) O ouvido  composto de trs partes: ouvido externo, ouvido mdio e ouvido interno. O ouvido externo consiste 
no pavilho auditivo (orelha) e no canal auditivo. Aps penetrar no ouvido atravs destas estruturas, a onda sonora choca-se 
contra a membrana do tmpano, que separa esta parte do ouvido mdio. A trompa de Eustquio liga o ouvido mdio  faringe, 
permitindo assim que a presso do ar existente nesta parte do ouvido seja igual  presso do outro lado da membrana timpnica. 
As vibraes provocadas pela onda sonora sobre o tmpano so transmitidas  cadeia dos trs ossculos (martelo, bigorna e 
estribo), que por sua vez as transmitem a outra membrana, conhecida como janela oval, fronteira entre ouvido mdio e ouvido 
interno. Esta ltima parte do ouvido contm a cdea, uma estrutura tubular dentro da qual se encontram outros tubos como o 
canal coclear, a rampa timpnica e a rampa vestibular. b) As clulas receptoras localizam-se sobre a membrana basilar, que se 
estende atravs de todo canal coclear. Trata-se de clulas ciliadas, cujos clios, mergulhados na endolinfa contida no canal, 
estendem-se at a membrana tectria. Os clios encontram-se, portanto, presos entre as duas membranas. A vibrao das 
estruturas do ouvido, causada pelo som, provoca a flexo, toro e trao dos clios, resultando na excitao das clulas 
receptoras e dando origem ao impulso nervoso que ser enviado ao crebro. Observe que as vibraes sonoras so transmitidas 
atravs de um meio gasoso no ouvido externo (ar), a seguir so transferidas para um meio slido (ossculos) no ouvido mdio, e 
finalmente no ouvido interno propagam-se atravs de um meio lquido (endolinfa). (Ilustrao a, adaptada de McGuigan, 1974; 
b, adaptada de Mueller.) 
a 
Ouvido externo Ouvido mdio Ouvido internv 
22 
23 
31,5 125 500 2.000 8.000 
Freqncia 
Figura 1.13. A curva do grfico corresponde ao limiar absoluto da audio e mostra que o ser humano no  igualmente sensvel 
a diferentes tons (freqncias), uma vez que a intensidade mnima necessria para que possam ser ouvidos (limiar)  grande para 
os tons de freqncia muito baixa (20 Hz) e de freqncia muito alta (16.000 Hz). O contrrio ocorre com tons compreendidos 
em regies intermedirias da faixa de audibilidade (4.000 Hz), que so ouvidos com pouca intensidade, uma vez que  muito 
acentuada a sensibilidade a este tipo de freqncia. A faixa designada Regio da fala corresponde ao conjunto de freqncias e 
intensidades das quais a voz humana se compe. Observe que as freqncias contidas na fala correspondem aos valores aos quais 
somos mais sensveis. (Ilustrao adaptada de Schmidt, 1980.) 
Nos grandes centros urbanos, o barulho  cada dia mais intenso. Esporadicamente, surgem pesquisas feitas com seres humanos e 
animais, mostrando as conseqncias da poluio sonora para a sade fsica e mental. No ser humano, a poluio sonora  
responsvel por distrbios circulatrios gstricos e perda da audio. A sade mental pode ser afetada quando o indivduo no 
consegue dormir o nmero mnimo de horas necessrias para um repouso adequado, ou quando a poluio sonora o impede de 
raciocinar, dificultando a execuo de tarefas que exigem concentrao. Disto pode resultar um elevado grau de ansiedade que 
dificulta o ajustamento do sujeito ao seu ambiente. 
de ondas muito longas (como, por exemplo, ondas de rdio, televiso e infravermelho) e ondas curtas (como, por exemplo, 
o ultravioleta, os raios X, raios gama e raios csmicos) (lmina 1.1, ver p. 119). Apenas as ondas de 450 a 750 nm 
(nammetros) so captadas e transduzidas pelos fotorreceptores do olho. Este pequeno conjunto de ondas corresponde a 
aproximadamente 1/100 de toda a energia eletromagntica conhecida. As ondas de 450 nm, quando captadas pelos 
receptores do olho, do-nos a sensao de azul. Diante de ondas um pouco mais curtas, temos a sensao de ver o violeta. 
Ondas mais curtas ainda, da regio do ultravioleta, no so percebidas, uma vez que nossa crnea e nosso cristalino filtram 
estes comprimentos de onda. Alm disso, os fotorreceptores so pouco sensveis a esta faixa do espectro. 
Existe porm, entre os animais invertebrados, uma infinidade de espcies que possuem receptores para esta faixa de 
espectro. Por exemplo, as abelhas, as formigas e outros insetos. Ondas de 500 nm do a sensao de verde e de 750 nm, de 
vermelho. As ondas mais longas, denominadas infravermelho, no so captadas pelo olho. Elas correspondem a ondas 
trmicas que estimulam termorreceptores da pele e do origem  sensao no de uma cor, mas de calor. Eis a um dado 
intrigante: dois estmulos que, fisicamente, correspondem a ondas eletromagnticas muito semelhantes (quanto a 
intensidade e comprimento de onda) nos proporcionam sensaes muito diferentes  um  responsvel pela sensao de 
vermelho 
A sensao das cores, da claridade, da escurido e do brilho dos objetos nos  proporcionada por um 
conjunto de clulas receptoras que revestem o interior do globo ocular. Trata-se de clulas nervosas 
especializadas, sensveis a uma pequena faixa da energia eletromagntica existente no universo. Esta faixa da 
energia  denominada espectro visvel (fig. 1.14) ou, simplesmente, luz. Alm da luz, a energia eletromagntica 
compreen Figur 
1.14. O espectro de radiaes eletromagnticas pode ser dividido em uma regio visvel e outras no visveis. A parte inferior da 
figura mostra o espectro que  visvel como luz de vrias cores e corresponde a uma regio muito pequena do espectro total 
ilustrado na parte superior da figura. Tanto ondas eletromagnticas muito longas (ondas de rdio, radar e infravermelho), como 
ondas muito curtas (raios gama, raios X e raios ultravioleta) no so visveis para o ser humano. 
dB 
100 
80 
60- 
40 
20 
o 
co 
o 
o 
0 
o 
co 
o, 
O 
 cl) 
Regilo da tala 
20 
63 
1.10. Viso 
Muito Muito 
longas curtas 
Raios 
x 
Raios 
gama 
1 
Espectro visvel 
Vermelho Laranja Amarelo Verde Azul Violeta 
700 600 575 525 450 400 
4 
Comprimento de onda (nm) 
24 
25 



 , 
 
 
. 
 



 

 


z 
:z 
z 
;:: 
:-1-
- 
E 
E 
- 
E 
E 

1 i.doo 1 4.000 16.000 Hz 

Ondas de 
rdio 
1 1 
I 
1 Radar 1 
1 
Infra I 
1 
vermelho 1 
1 
I Ultra 
1 
1 violeta 
1 
I 
1 

e outro, pela de calor. Deve-se isto ao simples fato de serem captados e transduzidos por receptores 
pertencentes a sistemas sensoriais muito 
distintos. 
Nossos olhos so compostos por um conjunto de estruturas destinadas  captura e ao controle da luz que penetra em seu 
interior. Para facilitar a compreenso da localizao e do funcionamento dessas estruturas, sugerimos que voc consulte a 
figura 1.15. Como  possvel ver, trata-se de um rgo bastante complexo, composto de diversos elementos. Alguns so 
transparentes, permitindo a passagem da luz  so conhecidos como aparelho diptrico. A conjuntiva, por exemplo,  
a parte anterior do glo Par 
o crebro 
Figura 1.15. O olho  um rgo muito complexo, composto de diversas partes, algumas das quais so transparentes como a 
crnea, o humor aquoso contido na cmara anterior do globo ocular, o cristalino e o humor vtreo, substncia gelatinosa que 
ocupa toda a cmara posterior. Depois que passou por estes elementos, a luz atinge e atravessa todas as camadas da retina, uma 
vez que os fotorreceptores se encontram na ltima, adjacente  membrana coride. Esta  constituda por uma rede de vasos 
sanguneos e encontra-se entre a retina e a esclertica, que  a estrutura mais externa, responsvel pela forma caracterstica do 
globo ocular. Crnea e cristalino formam o sistema ptico responsvel pela focalizao da imagem sobre a fvea, a regio mais 
delgada da retina. A fvea tambm  conhecida como mancha amarela ou mcula ltea. H na regio posterior do globo ocular 
um pequeno orifcio, por onde penetram vasos sanguneos e fibras do nervo ptico, conhecido como ponto cego, no qual no h 
receptores. O cristalino  mantido na sua posio por um conjunto de delicadas fibras que partem de sua borda e se inserem no 
msculo ciliar; so as fibras da znula, estruturas responsveis pela rcomodao do cristalino. L.ogo  frente do cristalino 
encontra- se o conjunto de msculos que formam a ris e a pupila, o orifcio pelo qual a luz penetra no olho. (Ilustrao adaptada 
de Schmidt, 1980.) 
bo ocular, a primeira, portanto, a ser atravessada pela luz. A seguir encontra-se a crnea. Constitui-se numa 
lente poderosa, responsvel pela convergncia dos raios luminosos sobre a retina. Desprovida de vasos 
sang mneos, torna-se muito vulnervel s infeces. Por outro lado, a ausncia de vasos permite a perfeita 
passagem da luz e diminui o risco da rejeio de enxertos, o que torna o transplante de crneas uma operao 
bastante simples e segura. No Brasil, o transplante no  realizado com maior freqncia por falta de crneas 
no banco de olhos. 
A crnea transparente funde-se com a esclertica, a parte branca e externa do globo ocular. Esta regio no 
transparente  ricamente irrigada por vasos sangneos. Eles se tornam visveis quando choramos, por 
exemplo. 
H uma pequena regio do nosso olho que foi cantada em prosa e verso por poetas de todo o mundo: 
Teus olhos (o negros, to belos, (o puros, de vivo luzir Olhos encantados, olhos cor do mar 
Estamos nos referindo  fris. Encontra-se logo atrs da crnea. Consiste em um conjunto de msculos e clulas 
pigmentadas, responsveis por 
sua colorao caracterstica: azul, verde, castanho ou preto. A ris tem forma de disco. No centro, h um 
orifcio, por onde penetra a luz refletida dos objetos do ambiente. Esta abertura, que parece uma pequena 
mancha preta,  a pupila. Quando a luz  muito intensa, ela se contrai. Aumenta de dimetro no escuro, 
chegando a ficar 7 vezes maior. Este fenmeno  facilmente observvel. Pea para um colega de ris clara olhar 
para uma pare- 
de ou folha de papel branca bem iluminada, enquanto voc observa o tamanho da pupila dele. A seguir, pea 
para ele cobrir os olhos abertos com as palmas das mos por um breve perodo de tempo e depois retirar 
rapidamente as mos, enquanto permanece olhando para o objeto claro. Voc 
ver nitidamente a pupila, que havia aumentado de dimetro no escuro, diminuir, contraindo-se rapidamente. 
Trata-se de uma resposta reflexa dos msculos da ris que evita a entrada de quantidades excessivas de luz no 
olho. Na penumbra, por outro lado,  preciso que a pouca luz existente penetre no olho para facilitar a viso. 
Isto  favorecido pelo aumento da pupila. 
Entre a crnea e a ris encontra-se a cmara anterior do olho, repleta de fluido transparente, conhecido como 
humor aquoso. Atrs da ris, na cmara posterior, encontra-se o cristalino. Ele funciona como uma lente 
elstica que, junto com a crnea,  responsvel pela focalizao precisa da imagem sobre a retina, fenmeno 
denominado de acomodao. A acomodao da imagem de objetos a diferentes distncias  obtida pelas 
mudanas na espessura do cristalino. A medida que as pessoas envelhecem, o cristalino perde a sua 
elasticidade. A sua capacidade de acomodao 
26 
27 
fica reduzida (presbiopia). No entanto, isto pode ser contornado com o emprego de lentes corretivas capazes 
de restaurar a viso de objetos prximos. A leitura muito freqente e o trabalho com objetos muito prximos 
dos olhos pode causar problemas semelhantes em pessoas jovens, O uso de culos tambm  necessrio 
quando ocorrem deformaes do globo ocular. Ele pode tornar-se achatado (miopia ou hipermetropia) (fig. 
1.16) ou apresentar uma crnea cuja curvatura no  perfeitamente esfrica (astigmatismo). 
Figura 1.16. Miopia e hipermetropia referem-se a deformaes do globo ocular. O olho mope  alongado, no permitindo que 
se formem imagens ntidas de objetos distantes sobre a retina (a). Para corrigir este problema, a pessoa mope (sem culos) 
costuma aproximar os objetos dos olhos (b). Com o uso de lentes corretivas (culos), passa a ver normalmente (c). O oposto 
ocorre com o olho hipermetrope, que  muito curto, no permitindo a formao de imagens ntidas de objetos prximos sobre a 
retina (d). Para superar esta dificuldade a pessoa hipermetrope afasta os objetos dos olhos (e). O emprego de lentes corretivas 
devolve a viso normal (t). 
Atrs do cristalino, encontra-se a cmara posterior. Ela  formada pelo espao interno do globo ocular, 
ocupado por uma substncia transparente e gelatinosa, o humor vtreo. Quase toda a superfcie interna desta 
cmara  revestida pela retina, formada pelas clulas receptoras e outras clulas nervosas. A imagem dos 
objetos  focalizada com maior preciso sobre um ponto da retina denominado fvea. Este se apresenta como 
uma pequena depresso, cujo dimetro chega a ter um milmetro de extenso. E com esta minscula regio do 
olho que vemos as cores e os detalhes das coisas que nos cercam. Atrs da retina, encontra-se uma rede de 
vasos sangneos conhecida como camada coride. Finalmente, a camada branca e mais externa do olho, a 
esclertica, constituda de tecido de sustentao,  responsvel pela forma caracterstica do globo ocular. 
Na retina encontram-se diversos tipos de clulas. A camada de fotorreceptores  formada pelas clulas 
nervosas sensveis  luz. Na figura 1.17 voc encontrar uma ilustrao esquemtica da retina. Preste ateno a 
um detalhe interessante e muito intrigante: aps atravessar todas as estruturas transparentes do olho, a luz 
atinge finalmente a retina; porm, antes de ser absorvida pelos fotorreceptores, ter que atravessar tambm 
todas as camadas da prpria retina, uma vez que os receptores esto localizados na ltima camada e virados 
para trs. A primeira camada corresponde a fibras nervosas que daro origem ao nervo ptico. A seguir, a luz 
atravessa a camada das clulas ganglionares, amcrinas, bipolares e horizontais. Finalmente, na ltima camada 
da retina, a luz  absorvida pelos fotorreceptores que ali se encontram. A reao fotoqumica dos receptores d 
origem a uma resposta neural, que  transmitida s clulas bipolares. Estas, por sua vez, transmitem seus sinais 
s clulas ganglionares, cujos axnios se agrupam. Formam, assim, o nervo ptico, que levar os impulsos 
nervosos ao sistema nervoso central. As clulas amcrinas e horizontais proporcionam a comunicao entre 
neurnios de uma mesma camada, permitindo uma sofisticada elaborao da informao captada pelos 
receptores. Na realidade, a atividade da retina  to complexa que pode ser considerada um minicrebro 
Depois de tomar conhecimento de um conjunto to complexo e elaborado de estruturas, talvez voc se 
surpreenda com o fato de existir um ponto cego na retina, isto , uma regio que no dispe de receptores. 
Trata- se do local em que o nervo ptico e os vasos sangneos chegam  retina. E conhecido como papua ou 
ponto cego. Com o auxlio do desenho da figura 1.18 voc poder convencer-se da existncia de seu ponto 
cego e demonstrar a si mesmo que, em determinadas circunstncias, uma pequena parte dos estmulos que nos 
cercam no pode ser vista. 
Um exame microscpico da retina mostra dois tipos de receptores: 
cones (6 milhes) e bastonetes (120 milhes), devido  sua forma aproximadamente cnica e cilndrica, 
respectivamente. Os bastonetes localizam- se na periferia da retina e so excelentes detectores de luz graas  
rodop Olh 
miope 
a 
Olho hipermetrope 
b 
Aproximando-se do objeto 
e 
c 
f 
28 
29 
Clula horizontal 
i Clulas bipolares 
Clulas ganglionares 
Fibras nervosas 
Para o crebro 
Figura 1.17. A retina  formada de diversas camadas de clulas nervosas. Na primeira camada a ser atravessada pela luz, 
encontram-se as fibras nervosas que formaro o nervo ptico. Na segunda camada, organizam-se as clulas ganglionares que do 
origem a estas fibras nervosas. A seguir encontra-se um conjunto de neurnios, as clulas amcrinas, que atravs de sinapses 
mltiplas entre as clulas ganglionares permitem uma ampla difuso da informao recebida por cada uma delas, transmitindo o 
impulso nervoso a numerosas clulas vizinhas. A camada das clulas bipolares  formada de neurnios que recebem a excitao 
de diversos fotorreceptores e transmitem esta informao para as ganglionares. Entre a camada de clulas fotorreceptoras e as 
bipolares h uma camada de clulas horizontais que  responsvel pela difuso da informao entre receptores vizinhos. 
Finalmente, a luz atinge a ltima camada de clulas nervosas, os fotorreceptores, onde  absorvida pelos cones e bastonetes 
para, aps a sua transduo, dar origem ao impulso nervoso que se propagar para as demais clulas da retina. No seu trajeto 
para o crebro, o impulso nervoso  transmitido das clulas bipolares para as ganglionares e finalmente atravs do nervo ptico 
deixa a retina e segue em direo ao crebro. Por Outro lado, as camadas de clulas horizontais e amcrinas so responsveis 
pela difuso de informao dentro de uma mesma camada. (Ilustrao adaptada de Boycott e Dowling, no livro de Schmidt, 
1980.) 
Figura 1.18. Para voc se convencer de que existe um ponto cego na retina do olho direito, proceda da seguinte maneira: segure 
o livro com o seu brao estirado, feche seu olho esquerdo e olhe fixamente para o ponto da figura. A seguir, aproxime 
lentamente o livro de seus olhos. Voc notar que, em dado momento, o passarinho desaparecer permanecendo, no entanto, as 
grades da gaiola. Isto ocorre porque o ponto cego corresponde a uma pequena rea da retina, sobre a qual agora incide a imagem 
do passarinho, que no  percebido. 
sina, substncia fotossensvel neles encontrada. Muito sensveis  luz, so responsveis pela viso na 
penumbra (viso escotpica), onde a deteco de pequenas modificaes no nvel de iluminao se torna 
importante. Se 
quisermos saber a cor ou detalhes de um objeto que surge na periferia do nosso campo visual, e cuja luz foi 
captada pelos bastonetes da periferia da retina, teremos que movimentar os olhos de tal maneira que sua 
imagem seja focalizada, com preciso, sobre a regio central dos cones da fvea. Os receptores desta regio, 
no entanto, somente reagem quando a luz 
 mais intensa (viso fotpica). 
A fvea  a regio de maior acuidade visual da retina, dotada exclusivamente de cones. Quando observados ao microscpio, 
anatomicamente parecem semelhantes. Sabe-se, no entanto, que de acordo com o seu funcionamento existem trs tipos de 
fotorreceptores nesta regio. 
Os trs tipos de cones diferem quanto ao tipo de substncia fotossensvel neles contida. Um tipo de cone capta 
principalmente a luz de comprimento de onda curta, proporcionando-nos a sensao do azul. A substncia qumica 
fotossensvel que reage a estes comprimentos de ondas foi denominada cianolbio (do grego: ciano azul; lbio, do verbo 
lambdno = captador). 
O segundo tipo de cone reage, sobretudo, a comprimentos de onda intermedirios, dando-nos a sensao do verde. A 
substncia qumica nele encontrada foi denominada clorolbio (do grego: cloro verde; lbio, do verbo lambdno 
captador). 
Epitlio pigmentado 
Bastonete 
Fotorre Con ceptores 
retiniano 
. 
Clula amcrina 
* 
Incidncia da luz 
30 
31 
Finalmente, o terceiro tipo de cone responde, principalmente, aos comprimentos longos de onda, e a substncia 
fotossensvel nele encontrada foi denominada eritrolbio (do grego: entro = vermelho; lbio, do verbo lambno captador). 
Como o ser humano possui trs tipos de receptores para a viso de cores, seu sistema visual  denominado tricomtico. J 
vimos que nos bastonetes apenas uma substncia fotossensvel  encontrada (a rodopsina). Trata-se portanto de um 
sistema visual monocromtico que no participa da viso de cores. Conclui-se, portanto, que a retina do ser humano  
dotada de quatro tipos de receptores: os bastonetes e trs tipos de cones. 
Voc certamente se recorda de ocasies em que, depois de andar por uma rua ensolarada e entrar em um cinema, a princpio 
voc no consegue ver nada alm da imagem projetada na tela. Lentamente,  possvel vislumbrar uma poltrona vazia. 
Somente muito tempo depois,  possvel ver outros objetos e pessoas a seu redor com maior clareza. Passada uma hora, 
com os olhos completamente adaptados ao escuro, para grande surpresa sua, voc consegue ver com nitidez at mesmo 
pessoas distantes. Em condies controladas de laboratrio,  possvel mostrar que os bastonetes precisam de mais tempo 
do que os cones para atingir a sua sensibilidade mxima. Mas, uma vez completamente adaptados ao escuro, sua 
sensibilidade  luz  mais pronunciada que a dos cones. Isto quer dizer que os bastonetes reagiro diante de estmulos 
luminosos bem mais fracos (de menor intensidade). 
Na figura 1.19 encontram-se os resultados obtidos em uma situao experimental deste tipo. Foram reunidas medidas 
obtidas em trs situaes distintas: projetando-se um diminuto feixe de luz numa regio do olho dotada tanto de cones 
como de bastonetes, foi obtido o trao contnuo. Na realidade, este consiste em dois degraus: o superior corresponde  
adaptao ao escuro dos cones e o inferior  dos bastonetes. A linha tracejada superior foi obtida projetando-se um feixe de 
luz sobre a fvea. E a linha tracejada inferior foi obtida projetando-se um feixe de luz sobre os bastonetes de uma pessoa 
que no possua cones; portanto, completamente cega a cores. Como se pode verificar, a curva de dois degraus 
corresponde  adaptao ao escuro de uma regio mediana da retina, onde so encontrados tanto cones quanto bastonetes. 
Estes resultados mostram que os dois tipos de receptores se comportam de forma bem distinta 
no escuro. 
1.11. A interao dos diversos tipos de receptores 
A descrio das diversas modalidades sensoriais vista nas pginas anteriores deixa claro que os mecanismos 
de captao de energia do ambiente e a fisiologia da transduo so os mesmos em todos os seres humanos. 
1 
O 5 10 15 20 25 30min 
Perodo de adaptao ao escuro 
Figura 1.19. Curvas de adaptao ao escuro. A linha contnua (a) corresponde ao curso da adaptao ao escuro, numa regio nas 
vizinhanas da fvea de um indivduo possuidor de viso normal, em que so encontrados tanto cones como bastonentes. 
Verifica-se que a curva  composta por duas partes bem distintas. A curva pontilhada (b) corresponde  adaptao ao escuro da 
fvea, regio em que existem apenas cones. Verifica-se que a curva corresponde perfeitamente ao primeiro degrau da curva 
anterior, mostrando que a adaptao ao escuro inicial do olho humano  devida ao aumento de sensibilidade dos cones, o que 
ocorre durante os primeiros 7 ou 8 minutos no escuro. A linha tracejada (c) foi obtida com uma pessoa cuja retina era dotada 
apenas de bastonetes. Isto , desprovida de cones, era totalmente cega a cores (viso monocromtica). Verifica-se que esta curva 
corresponde perfeitamente  segunda parte da primeira curva (a), demonstrando que a sensibilidade mxima do olho humano s 
 atingida aps 25 ou 30 minutos de adaptao ao escuro, ocasio em que estmulos de pouqussima intensidade podem ser vistos. 
Esta sensibilidade acentuada  devida  adaptao dos bastonetes e ocorre muito tempo depois da adaptao inicial dos cones. 
(Ilustrao adaptada de Schmidt, 1980). 
O que difere de uma pessoa para outra, diante de uma mesma situao de estmulos,  a percepo. Ou seja, a seleo e 
interpretao dos dados sensoriais. Todo conhecimento que temos de nosso prprio corpo e do ambiente, constitudo tanto de 
nossos semelhantes quanto de objetos inanimados,  fornecido por nossos rgos dos sentidos. Eles transformam diferentes 
tipos de energia (mecnica, trmica, eletromagntica etc...) em energia eletroqumica, que chega ao nosso crebro na forma de 
impulsos nervosos. No crebro, sero integradas as informaes provenientes dos diversos rgos sensoriais. Isto, porm, no 
basta para nossa percepo do ambiente. Ela depender tambm de nossa experincia passada, de nosso estado emocional e 
motivacional, bem como de nossas atitudes, preconceitos e de nossas expectativas a respeito do futuro. O filsofo Immanuel 
6- 
5- 
4- 
3- 
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33 
Kant, pensando neste assunto, chegou  concluso de que ns no vemos as coisas como elas so, porm 
como ns somos. 
E graas  integrao de todas as informaes provenientes de um dado estmulo que pessoas portadoras de 
deficincias sensoriais, como, por exemplo, daltonismo ou surdez, vivem ajustadas em seu ambiente. Uma 
pessoa daltnica, cujos cones esto desfalcados de uma das substncias fotorreceptoras, poder, 
ocasionalmente, mostrar dificuldades para discriminar dois objetos pela cor. Porm, raramente ter transtornos 
maiores, uma vez que os objetos tambm diferem quanto ao brilho, forma, tamanho, aspereza, temperatura e 
outras caractersticas. O mesmo ocorre com uma pessoa parcial ou totalmente cega. Ela poder perceber o 
espao atravs da informao fornecida por outras modalidades sensoriais como, por exemplo, a audio e o 
tato. 
34 
